terça-feira, 21 de abril de 2009

Perfil de Liderança - Guterres + Sócrates

Perfil de Liderança – Entre a máquina e o fluxo de transformação

Quando se compara Gestão vs Liderança temos de falar claramente na dicotomia entre o processo e a substancia. Muitos entendem erradamente, estes dois conceitos de forma disjunta, mas estes não são exclusivos mas sim complementares, pois a existência de liderança cria o contexto para o aparecimento necessário da gestão.

Na realidade quando se define como atributos fundamentais o Pragmatismo, Eficiência, Controle, Gestão e a Táctica, para definir o perfil para um bom gestor e outros como o Idealismo, a Visão, Inspirador e a Estratégia para classificar um líder, juntos são atributos que certamente ajudam a construir um líder superior.

Este cocktail de atributos leva-nos para a definição de líder, o indivíduo, a substancia que permite liderar o processo de transformação e mudança organizacional. Este processo de liderança e mudança é definido de forma sintetizada em 4 tipos:


Eis que surge naturalmente a discussão:
· Qual será o perfil perfeito para líder? Será mais num tipo de conceito do definido por “Tom Peters” ou mais ao estilo de Shackleton.
· Qual a importância das equipas que acompanham um líder?
· Qual a fase mais eficaz do processo de mudança?

A questão do tipo de liderança fez-me reflectir em termos políticos para dois grandes líderes da actualidade política Portuguesa mais recente, nomeadamente José Sócrates e António Guterres.

É interessante pegar nos manuais de gestão e liderança, e fazer uma analogia com estes dois personagens tão diferentes e tão iguais. As semelhanças macro são enormes, para além de pertencerem ao Partido Socialista, um já foi outro ainda é primeiro-ministro de Portugal, têm ainda em comum os elementos basilares da Social-democracia republicana e da ideologia do Partido Socialista. No entanto quando se detalha a liderança dos dois não podiam ser mais diferentes.

António Guterres é claramente um líder de coração, de paixão e de alma, cujas preocupações principais passam sempre pelo lado humano. Foi com a campanha do Coração que ganhou as eleições em 1996, uma campanha que claramente quis imprimir um lado afectivo à política e num governo marcado pelo diálogo. Chefia hoje o Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas.
Marcado pelo retracto de pobreza social do país, António Guterres “o Líder” aparece como um aluno brilhante, engenheiro electrotécnico, Católico, Socialista, Sensível, Dialogante, Afectivo e Humanista.

José Sócrates é um líder com uma visão para Portugal, cujo maior empenhamento passa pela renovação do tecido produtivo e empresarial do país, dotando-o de maior capacidade tecnológica, inovação e conhecimento. Protegido por António Guterres, assume nos dois governos do mesmo primeiro como ministro-adjunto, depois como ministro do ambiente. Ganhou as eleições para primeiro ministro de Portugal em 2005, numa campanha pragmática de um novo rumo, numa necessidade de voltar a acreditar face ao descrédito dos portugueses.
Marcado pela calamidade económica do país, José Sócrates “o Líder” aparece como o jovem politico ambicioso, engenheiro civil, Socialista Reformista, Determinado, Objectivo, Pragmático, Metódico, Teimoso, Enérgico e Lutador.

Remetendo para o Guru da Gestão Tom Peters, acha que um líder deve estar dentro do triângulo do grande talentoso, o visionário e o Businessman influente e conhecedor do mercado. Tom Peters define o perfil do super-líder como alguém muito inteligente, energético, visionário, com focos no futuro e capazes de reconhecer cedo e resolver os grandes problemas. Devem ser optimistas e sonhadores mas também persistentes e implacáveis. Grandes líderes são rigorosos e extremamente objectivos.

Claramente estamos perante a definição de um super-homem, pelo que muitos líderes acabam por ter parte apenas deste grande bolo de características que Tom Peters define. Mas essencialmente conseguimos entender que este é o líder das empresas, das grandes instituições que são escolhidos para fazer, executar obra, apresentar resultados, servir alguém.

Num formato bastante diferente ao de Tom Peters, temos o exemplo que Shackleton nos deixou. Shackleton foi um explorador da Antárctida que no inicio do século 20 tentou por três vezes alcançar o Pólo Sul e falhou sempre, mas nunca perdeu um homem da sua equipa. As principais características que nos deixou como líder foram a Humildade, Coragem, Integridade, Solidariedade, Humor, Paixão, Sabedoria. Shackleton deixou um legado de liderança que ainda hoje é reconhecido, porque em detrimento do objectivo principal, ele punha sempre as pessoas à frente.

Este estilo de liderança é claramente centrado em dois vértices: A Equipa e o Líder. A grande preocupação na equipa é para manter a integridade, garantindo a sua lealdade e confiança, tentar gerar um espírito de irmandade criando sinergias que no futuro permitem ultrapassar obstáculos. Enquanto líder, este deve ter sempre a preocupação de ser um exemplo para os outros, deve demonstrar paixão nos actos, atraindo e retendo os seguidores, humildade para apreender com os outros, humildade para reconhecer os fracassos e coragem para perseguir de novo o objectivo. Shackleton deixa-nos ainda o exemplo de termos preocupações para com a equipa na partilhar do sucesso e do insucesso, a necessidade de recarregarmos de energias e rir regularmente, mantendo um espírito positivo no grupo.

Num processo de liderança, um grande líder deve ter a preocupação de fazer outros. Shackleton vivia no paradoxo de continuamente preparar o seu próprio sucessor, para que caso lhe acontecesse alguma coisa, um membro da equipa seguiria o seu trabalho. Também assim deve ser um líder, alguém capaz de fazer-se rodear de pessoas melhores do que ele em muitas áreas.

A liderança é o processo de juntar uma equipa para produzir algo nivelado de excelente. Para isso um processo de liderança deve ter em linha a performance e deve ser comunicado com paixão, entusiasmo, compromisso, grandes causas e determinação, com vontade de fazer a diferença, grandes aventuras, crescimento e um apetite insaciável pela mudança.

Tal como diz Warren Bennis e Patricia Ward Biederman, no livro “Organizing Genius”, “The best thing a leader can do for a Great Group is to allow its members to discover their greatness.”, foi assim que António Guterres fez, liderando uma equipa com visão e capacidade para deixar que cada membro do governo se torna-se líder no seu próprio ministério.

Numa visão pragmática de tipos de líder, diria que José Sócrates é mais do tipo “Tom Peters” e António Guterres é mais do estilo de Shackleton. Avaliando bem podemos verificar a excelência dos membros da equipa de Guterres, funcionando este como pivô e mentor de um grupo recheado de potenciais lideres, em que a equipa muitas vezes segura o seu próprio líder. O caso histórico de António Guterres ficou a sua demissão de primeiro-ministro com a famosa frase do “Pântano”. Também aqui se interpreta a sua humildade e reconhecimento de não estar nas melhores condições para gerir o País.
José Sócrates é mais do tipo “Tom Peters” estando não num triângulo dourado mas sim num quadrângulo, onde para além de talentoso, visionário e excelente conhecedor do País, associa também de ser um “Technology Dreamer-True Believer”.

Quando observamos as fases de mudança de um processo, desde a criação da equipa, visão e valores, passando pela comunicação e delegação dos objectivos, até ao acompanhamento e consolidação, diria que num país a fase mais crítica da mudança é o meio, ou seja a capacidade de acompanhar os objectivos e fazer acontecer, tal como diz Rosabeth Moss Kanter “Keep going … when it gets tough!”

Porque o mundo atravessa diferentes contextos, porque o país vive momentos radicalmente diferentes, é impossível comparar e valorizar qual o melhor tipo de líder para um país. Poderíamos dizer que António Guterres, que pelo humanismo, esperança e paixão que transmitiu ao país, também porque raramente o líder é acumulativamente o melhor a executor, sendo o mentor de José Sócrates, está por isso num patamar superior de liderança. No entanto, observando ao pormenor deixou-nos o “amargo de boca” de não ter concluído o projecto e comparativamente vemos o seu pupilo, energeticamente a concretizar a mudança.

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